Grão-Mestre da GLLP reflete sobre a ligação histórica entre a Maçonaria e as Nações Unidas

Por ocasião do Dia das Nações Unidas, assinalado a 24 de outubro, o Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), Paulo Rola, publicou no jornal Observador um artigo de opinião intitulado «Maçonaria e Nações Unidas, um percurso interligado».

Neste artigo, o Grão-Mestre revisita as ligações históricas entre a Maçonaria e a criação das Nações Unidas, destacando o contributo de personalidades como Léon Bourgeois, Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Harry S. Truman para a afirmação dos princípios da solidariedade, da fraternidade universal e da cooperação entre as nações.

Num contexto internacional marcado por conflitos e crescentes desafios ao multilateralismo, Paulo Rola reflete sobre o futuro das Nações Unidas e a atualidade dos valores maçónicos na promoção do diálogo, da justiça e da paz.

Reproduzimos, de seguida, o artigo na íntegra, originalmente publicado no jornal Observador.


Maçonaria e Nações Unidas, um percurso interligado

Nesta data, que marca a entrada em vigor da Carta das Nações Unidas assinada em 1945 e que foi escolhida como Dia Mundial da ONU, começo por parafrasear as perguntas de Gauguin no seu mais famoso quadro: de onde vêm, o que são e para onde vão as Nações Unidas?

Para responder adequadamente a estas questões, é indispensável termos em conta o atual desequilíbrio existente entre a efetiva concretização no terreno das ações da instituição e a perceção instalada dos seus efeitos. Para citar um exemplo, pese embora os milhares de meritórios projetos e programas da iniciativa do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, distribuídos por cerca de 170 países e territórios, é incontornável darmos conta de um criticismo crescente no que respeita ao trabalho desenvolvido. A esse propósito, o ano passado e a propósito dos 80 anos da organização, o secretário-geral, António Guterres, denunciou mesmo os ataques contra os objetivos e princípios fundadores de que a ONU seria alvo, afirmando que “estamos a assistir a ataques aos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas como nunca antes”.

Afetada pois por ataques reputacionais, dilacerada por cortes orçamentais e à beira de eleições decisivas no final do ano que levarão à substituição de António Guterres no cargo de secretário-geral, a ONU enfrenta agora aquele que muitos consideram o período mais crítico da sua história. História essa que é inseparável da história da Maçonaria.

Com efeito, pese embora o eventual choque de muitas consciências menos informadas, a resposta à pergunta de onde vêm as Nações Unidas é indissociável de múltiplas referências maçónicas.

Desde logo, a ONU nasceu tendo nas suas raízes o conceito de “solidarismo”, criado por Léon Bourgeois, prémio Nobel da Paz e primeiro presidente em 1919 da sua antecessora, a Sociedade Das Nações (SDN). Iniciado na maçonaria em 1882, numa Loja do Grande Oriente de França em Reims, Bourgeois refletiu diretamente os ideais de solidariedade, justiça social e fraternidade universais cultivados nas Lojas, no cerne de uma visão da relação entre os Estados. Se o Homem isolado não existe e as pessoas estabelecem entre si verdadeiros contratos sociais, também o equilíbrio e a paz entre os Estados deve decorrer de um contrato que estabeleça procedimentos específicos de arbitragem, para a regulação dos conflitos internacionais.

Os acontecimentos que levaram à Segunda Guerra Mundial determinariam o fim da SDN e o surgimento de uma nova proposta de articulação das nações, mantendo-se no entanto o espírito original. A 14 de Agosto de 1941, dois líderes mundiais ambos maçons, Winston Churchill (iniciado na Studholme Lodge No. 1591 em Londres) e Franklin D. Roosevelt (iniciado na Holland Lodge No. 8 em Nova Iorque), divulgaram a resolução de princípios que ficou conhecida como a ‘Carta do Atlântico’, um dos passos mais significativos para a formação da ONU. Seria Roosevelt, aliás, a cunhar o próprio termo ‘Nações Unidas’, na Declaração assinada em Washington a 1 de janeiro de 1942 e que prosseguia os propósitos e princípios contidos na ‘Carta do Atlântico’.

Finalmente, seria Harry S. Truman, outro maçom (iniciado na Loja Belton nº 450 em Belton, Missouri) e presidente dos EUA após a morte de Roosevelt, a assinar a Carta de Fundação da ONU na Conferência de São Francisco.

Todos os percursos maçónicos destes líderes estão documentados desde o momento da iniciação. Mas o relevante para este artigo não é o name-dropping de ilustres figuras, mas, mais relevante, o que significa o dilema atual vivido pela ONU para a Maçonaria Regular.

Como escreveu recentemente o Professor Hitoshi Nasu, especialista em Direito Internacional: “Este é o momento para nos lembrarmos que a ONU não é um ideal infinito, mas, inevitavelmente, sofre retrocessos no fluxo e refluxo do progresso, à medida que as condições geopolíticas para o seu funcionamento se alteram. É nossa responsabilidade compartilhada continuar a desenvolver um mecanismo de segurança coletiva que iniba a revisão unilateral do status quo, em busca da ordem jurídica internacional que melhor proteja o futuro da humanidade.”

Como refere a própria instituição, “a seleção do décimo secretário-geral da ONU, que assumirá o cargo em janeiro de 2027, poderá moldar a diplomacia global, a resposta a crises em todo o mundo e a direção do sistema multilateral na próxima década”.

A resposta à terceira pergunta de Gauguin, para onde vão as Nações Unidas, será respondida a partir de então. Mas estou certo de uma coisa: seja ou não um maçom a liderar a instituição, no seu caminho estarão sempre os mesmos princípios maçónicos que – desde o solidarismo de Léon Bourgeois – orientaram a ação de Roosevelt, Truman e muitos outros, com base na fraternidade universal, na entreajuda entre pessoas e nações, e na vontade de prosseguir sempre um caminho capaz de fazer de cada indivíduo uma pessoa melhor e de cada país uma nação mais dialogante e empenhada na defesa da paz e na recusa das guerras.

Paulo Rola
Grão-Mestre da Maçonaria Regular


Artigo de opinião originalmente publicado no jornal Observador, a 24 de outubro de 2026.

Consultar a publicação original no Observador →

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